Cirurgia do siso: como é feita passo a passo
- Dra. Fernanda Schimidt

- há 2 dias
- 9 min de leitura
Se você chegou até aqui, provavelmente está naquele momento em que já não dá mais para adiar. Talvez o dentista tenha indicado. Talvez a dor tenha aparecido. Talvez você simplesmente tenha decidido que quer entender o que vai acontecer antes de sentar na cadeira para tirar seus sisos.
Essa é, aliás, a melhor razão para ler este artigo: entender antes como é feita a cirurgia do siso, porque o medo da cirurgia do siso, na maioria das vezes, é muito maior do que a cirurgia em si, e ele tende a diminuir quando você sabe exatamente o que esperar.
Vou te contar o passo a passo como funciona aqui na clínica, do início ao fim. Sem omitir nada, sem exagerar nada.

Antes de tudo: por que o siso precisa ser retirado?
O dente do siso, ou terceiro molar, é o último a erupcionar, geralmente entre os 17 e 25 anos. O problema é que a mandíbula humana muitas vezes não tem espaço suficiente para acomodá-lo. Quando isso acontece, ele pode ficar preso dentro do osso (incluso), erupcionar de forma torta ou pressionar os dentes vizinhos.
Nem todo siso precisa ser extraído, mas quando a indicação existe, adiar raramente é uma boa estratégia. Um siso que causa problema hoje tende a causar problema maior amanhã.
A consulta especializada: onde tudo começa
A cirurgia não começa no dia da cirurgia. Começa na consulta de avaliação, e essa parte é tão importante quanto o procedimento em si.
Nessa consulta, o cirurgião bucomaxilofacial vai:
Fazer um exame clínico completo. Verificar quantos sisos você tem, em que posição estão, se há inflamação ativa, se existe risco de infecção ou dano ao dente vizinho. Se você tem boa abertura bucal e quanto essa abertura pode influenciar na cirurgia.
Solicitar exame de imagem. Caso você ainda não tenha um exame recente, ele solicitará esse exame que é essencial. A radiografia panorâmica mostra a posição dos sisos em relação à arcada. Nos casos em que o siso inferior está próximo do nervo alveolar inferior, o nervo responsável pela sensibilidade do lábio e do queixo, a tomografia computadorizada (CBCT) pode ser indispensável para planejar a melhor técnica cirúrgica. Ela mostra a relação tridimensional entre a raiz e o canal nervoso, o que define tanto a técnica cirúrgica quanto a conversa honesta sobre riscos. Na arcada superior é necessário avaliar em que posição esse dente tem mais facilidade para sair e a proximidade com o seio maxilar.
Explicar o plano. Um bom profissional sai dessa consulta tendo explicado: quantos dentes serão retirados, em qual ordem e de que forma, como será a anestesia, o que você pode esperar na recuperação, e quais são os riscos específicos do seu caso.
Se você saiu de uma consulta de avaliação sem entender nenhum desses pontos, você necessita perguntar.
No dia da cirurgia do siso, como é feita? O que acontece, em ordem:
1. Chegada e preparação
Você chega ao consultório. A equipe vai confirmar seu nome, verificar se você se alimentou ou se está em jejum (quando aplicável, dependendo do tipo de anestesia), questionar se tomou os medicamentos prescritos previamente (quando indicado) e instalar você confortavelmente na cadeira.
Se a cirurgia for feita com sedação (anestesia local + sedação endovenosa), um médico anestesiologista vai estar presente. Se for apenas com anestesia local, o próprio cirurgião aplicará no intra operatório.
A anestesia local costuma ser o de maior ansiedade, e é completamente compreensível. O que ajuda: respirar devagar, avisar se estiver nervosa, e lembrar que a equipe está acostumada com essa sensação. Você não é a primeira e não vai ser a última a chegar com o coração acelerado.
2. Anestesia local
Essa é, disparadamente, a parte que as pessoas mais temem, e raramente é o que imaginavam. A anestesia é injetada na gengiva ao redor do dente, com uma agulha muito fina. Existe uma leve pressão no momento da aplicação e, em alguns casos, uma sensação de formigamento que passa em segundos. Após alguns minutos, a região fica completamente anestesiada e você pode ficar tranquilo.
A partir daí, você não vai sentir dor. Pode sentir pressão, movimento, vibração, ouvir barulhos, mas não terá dor. Se sentir desconforto em qualquer momento, você avisa e a anestesia é complementada. Isso é protocolo, não exceção. A anestesia é realizada para durar a cirurgia toda e além (cerca de 4 a 6 horas dependendo do anestésico usado).
3. Incisão e afastamento da gengiva
Com a região anestesiada, o cirurgião faz uma incisão pequena na gengiva para expor o dente e o osso ao redor. Esse corte é preciso e calculado, não é maior do que o necessário e em seguida, a gengiva é delicadamente afastada para dar acesso ao dente. Você vai apenas saber que alguma coisa está acontecendo, mas não vai sentir dor.
4. Remoção de osso (quando necessário)
Aqui está um passo que muita gente não sabe que existe, e que, quando descobre, pode assustar. Por isso é importante saber antes.
Quando o siso está incluso (dentro do osso) ou em posição que não permite remoção direta, é necessário remover uma pequena quantidade de osso ao redor do dente para liberá-lo. Isso é feito com instrumentos rotatórios, e você vai ouvir um som parecido com o da broca dentária comum, o motorzinho.
O som é mais assustador do que o procedimento. Não tem dor. O osso não tem sensibilidade da mesma forma que o dente, e com a anestesia ativa, a experiência é muito mais tranquila do que parece de fora.
5. Seccionamento do dente
Dependendo da posição e do tamanho do siso, ele pode precisar ser dividido em partes antes de ser removido. Essa técnica, chamada de odontossecção, é usada justamente para facilitar a saída do dente com o menor trauma possível para o osso e para os tecidos ao redor.
Não significa que o dente é difícil. Significa que o cirurgião está sendo estratégico para que a sua recuperação seja mais rápida.
6. Remoção do dente
O dente é removido, inteiro ou em partes, conforme o planejamento. O cirurgião usa instrumentos específicos para mobilizar e extrair cada fragmento com precisão.
Você vai sentir pressão. Pode sentir o movimento. Mas não vai sentir dor. Se em algum momento sentir dor de verdade, não pressão, não movimento, mas dor, avise imediatamente. A anestesia pode e deve ser complementada.
7. Limpeza do alvéolo
Após a remoção do dente, o cirurgião faz uma limpeza cuidadosa do alvéolo, o espaço que o dente ocupava. Resíduos ósseos e fragmentos são removidos, e a área é lilmpa e irrigada. Essa etapa é importante para a cicatrização. Um alvéolo limpo cicatriza melhor e com menos risco de infecção.
8. Sutura
A gengiva é reposicionada e suturada com pontos, geralmente de fio não absorvível, mas também pode ser reabsorvível que se dissolve sozinho em 7 a 10 dias, nas duas situações você precisa retornar para a consulta de retorno.
Os pontos não doem. Você sente a pressão do instrumento, mas a região ainda está anestesiada. Em minutos, a sutura está feita.
9. Orientações e saída
Antes de ir embora, você recebe orientações detalhadas sobre: o que comer, o que evitar, como tomar a medicação prescrita, quando voltar, e o que fazer se surgir algo fora do esperado. Guarde as orientações escritas, e preferencialmente inicie todos os cuidados antes de a anestesia começar a passar em algumas horas.
Quanto tempo dura a cirurgia?
Depende do número de sisos, da posição de cada um e da complexidade do caso.
Um siso já irrompido e bem posicionado pode ser removido em 15 a 20 minutos. Um siso completamente incluso, em posição difícil, pode levar 40 a 60 minutos ou mais. Quando todos os quatro sisos são retirados na mesma cirurgia, o que é possível em muitos casos, o tempo total aumenta, mas a recuperação é feita de uma vez só.
O seu cirurgião consegue estimar o tempo com razoável precisão depois de analisar o exame de imagem e te examinar em consulta.
A recuperação: o que esperar nos primeiros dias
Primeiras horas
A anestesia começa a passar entre 2 e 4 horas após a cirurgia. É quando o desconforto inicia, e é quando a medicação prescrita precisa já estar agindo. Tome o analgésico antes da anestesia passar completamente. Não espere a dor chegar.
Nos primeiros 30 minutos após a cirurgia, você vai morder uma gaze para ajudar na formação do coágulo no alvéolo. Esse coágulo é fundamental para a cicatrização, por isso evite cuspir, sugar canudo, ou mexer na região com a língua nas primeiras 24 horas.
Primeiras 48 horas
Inchaço, dor moderada e dificuldade para abrir a boca são esperados, e são sinais de que o corpo está trabalhando na cicatrização.
Gelo nas primeiras 24 horas: 20 minutos com gelo, 20 minutos sem, durante as primeiras horas. Ajuda a controlar o inchaço. Cuidado para não queimar a pele pela perda da sensibilidade com a anestesia.
Alimentação líquida e pastosa: sopas frias ou mornas, vitaminas, iogurte, purê. Nada quente, nada duro, nada que exija mastigação na região operada.
Repouso: especialmente nos primeiras 4 dias. Atividade física intensa aumenta o fluxo sanguíneo e pode comprometer o coágulo.
Dias 3 a 5
Costuma ser o período de pico do inchaço, e, paradoxalmente, quando muitas pessoas acham que algo deu errado porque o inchaço "aumentou". Na maioria dos casos, é evolução normal.
A dor tende a diminuir progressivamente. Se aumentar significativamente após o 3º dia, especialmente com mau cheiro ou sabor ruim na boca, pode ser alveolite (perda do coágulo). Ligue para o consultório. Dificuldade para respirar, ou para engolir devido ao inchaço, também não são normais.
Semana 1
A maioria das pessoas consegue retornar às atividades normais com alguns cuidados. A alimentação ainda deve ser suave. Higiene bucal delicada, escovação suave evitando a região da cirurgia, e bochecho com antisséptico conforme orientado.
A partir da semana 2
A cicatrização externa já está praticamente completa. O osso leva meses para remodelamento total, mas isso acontece por baixo, de forma silenciosa, sem interferir no dia a dia.
Riscos da cirurgia do siso: o que é real e o que é mito
Parestesia (dormência temporária do lábio ou queixo): possível quando o siso está próximo do nervo alveolar inferior. Por isso a tomografia é indispensável nesses casos, ela permite planejar a cirurgia para minimizar esse risco. Quando acontece, é geralmente temporária e resolve em semanas a meses.
Alveolite: perda do coágulo no alvéolo, causando dor intensa a partir do 3º ou 4º dia. Tratável com curativo específico no consultório.
Infecção: rara quando seguidas as orientações de higiene e medicação. Febre acima de 38°C, pus, piora progressiva da dor, são sinais para contato imediato com o consultório.
Fratura do dente vizinho ou dano ao segundo molar: possível em casos muito específicos, e considerado no planejamento cirúrgico.
O que é mito: a ideia de que cirurgia de siso é necessariamente traumática, longa e incapacitante. Para a maioria das pessoas, com planejamento adequado, é um procedimento com recuperação de 5 a 7 dias, e a antecipação é pior do que a experiência real.
Posso fazer todos os sisos de uma vez?
Na maioria dos casos, sim, quando a indicação existe para todos eles e o estado de saúde geral permite. Fazer tudo de uma vez significa uma única cirurgia, uma única recuperação, e não precisar repetir o processo.
Em alguns casos, o profissional pode preferir fazer em etapas, por exemplo, fazer os dois do lado direito em uma sessão e os do lado esquerdo em outra, para que o paciente tenha um lado funcional durante a recuperação. Essa decisão é feita caso a caso.
Preciso de alguém para me acompanhar?
Se a cirurgia for feita com sedação endovenosa: sim, obrigatoriamente. Você não pode dirigir após sedação e vai precisar de acompanhante para ir para casa.
Se for feita apenas com anestesia local: na maioria dos casos, você consegue ir sozinha e voltar sozinha, mas ter alguém disponível para as primeiras horas em casa é sempre uma boa ideia, não por necessidade médica, mas por conforto.
Perguntas frequentes sobre a cirurgia do siso
A cirurgia do siso dói? Durante a cirurgia: não, graças à anestesia. Após: existe desconforto, controlado com medicação prescrita. A dor intensa não é esperada quando a cirurgia é bem feita e as orientações são seguidas.
Vou ficar com o rosto inchado? Sim, especialmente nos primeiros 3 dias. O pico do inchaço costuma ser entre o 2º e o 3º dia. Gelo nas primeiras 24 horas ajuda a controlar.
Quanto tempo fico sem trabalhar? Trabalho de escritório ou remoto: geralmente 1 a 2 dias. Trabalho físico ou que exige esforço: pelo menos 5 dias. Cada caso tem suas particularidades, converse com seu cirurgião.
Posso comer normalmente depois da cirurgia? Você pode e deve se alimentar após a cirurgia para ajudar na recuperação. Entretanto, nas primeiras 48 a 72 horas, alimentação líquida e pastosa. A partir daí, gradualmente, conforme o conforto. Alimentos muito duros ou quentes ficam restritos por cerca de 1 semana.
Vou precisar de pontos? Eles doem para tirar? Depende da técnica e do fio utilizado. Pontos absorvíveis se dissolvem sozinhos. Pontos não absorvíveis são retirados em consulta de retorno, o procedimento é rápido e indolor.
Posso fazer exercício físico depois da cirurgia? Atividade intensa deve ser evitada por pelo menos 5 a 7 dias. Exercícios de baixo impacto, como caminhada leve, podem ser retomados antes, conforme orientação do seu cirurgião.
Vou precisar de atestado? Sim, se precisar. O cirurgião fornece atestado para os dias necessários de recuperação.
A cirurgia do siso tem má fama, e boa parte dessa fama foi construída por relatos de quem passou pela experiência sem entender o que estava acontecendo, sem planejamento adequado ou com profissional sem especialização específica.
Com diagnóstico correto, planejamento por imagem, técnica adequada e orientações claras na recuperação, é um procedimento que a maioria das pessoas descreve como "mais tranquilo do que esperava."
Não porque seja simples de executar, exige técnica, conhecimento e precisão. Mas porque quando é bem feito, você sente exatamente o que deve sentir: pressão, movimento, e nenhuma dor.
Se você está considerando a cirurgia e quer entender o que o seu caso específico exige, o próximo passo é uma agendar uma consulta especializada com um exame de imagem atualizado. Só a partir daí dá para ter um plano real, e um prazo, um custo e uma conversa honesta sobre o que esperar.
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