Siso pode ficar na boca sem problema?
- Dra. Fernanda Schimidt

- 11 de jun.
- 6 min de leitura
Essa é uma das perguntas que mais ouço no consultório e a resposta honesta é: depende. O siso não precisa necessariamente ser extraído só por existir, mas ele também não pode simplesmente ser ignorado.
Há dentes do siso que ficam na boca por décadas sem causar absolutamente nenhum problema e há casos em que um siso aparentemente quieto está agindo em silêncio — pressionando o dente vizinho, acumulando bactérias em locais impossíveis de limpar, ou contribuindo para dores que o paciente nunca associou a ele.
A diferença entre um caso e outro está no diagnóstico. Não na sorte do destino.
O que é o dente do siso?
O siso, também chamado de terceiro molar, é o último dente a erupcionar na boca, geralmente entre os 17 e os 25 anos. São quatro ao total: dois na arcada superior e dois na inferior. O problema é que a mandíbula humana foi encolhendo ao longo da evolução enquanto o número de dentes permaneceu o mesmo. O resultado: falta de espaço. Em muitas pessoas, o siso simplesmente não tem para onde ir.
Quando isso acontece, ele pode ficar incluso (completamente dentro do osso), semi-incluso (parcialmente irrompido, com parte da coroa exposta pela gengiva) ou em posição inadequada, inclinado para o lado, virado de cabeça para baixo ou pressionando diretamente o segundo molar.
Quando o siso pode ficar na boca?
Um siso pode permanecer na boca sem necessidade de extração quando reúne algumas condições específicas:
Irrompeu completamente e está em posição funcional. O dente emergiu direito, se encaixou na arcada e você consegue morder, mastigar com ele. Isso é raro, mas acontece.
Tem um antagonista. Se o siso superior tem um siso inferior correspondente, e os dois se encontram na mastigação, eles formam um par funcional. Tirar um pode fazer o outro "sobre-erupcionar" (descer ou subir além do normal por falta de contato).
É possível higienizá-lo adequadamente. Esse ponto é crucial. Se o siso está em posição que permite escovação e uso de fio dental sem dificuldade, o risco de cárie e doença periodontal cai significativamente.
Não há sinal de pressão sobre o segundo molar. O exame de imagem (radiografia panorâmica ou tomografia, dependendo do caso) não mostra reabsorção ou dano no dente vizinho.
Não há histórico de infecções repetidas. Pericoronarite, inflamação da gengiva ao redor do siso, que se repete é um sinal de que o dente não vai encontrar sua posição definitiva.
Se o seu siso preenche todos esses critérios acima, acompanhamento regular com avaliação periódica é uma conduta razoável de se ter. Extração imediata não é obrigatória.
Quando o siso precisa ser retirado?
Existem situações em que a extração é a conduta mais segura, não por protocolo automático, mas porque o risco de deixar o dente supera benefício de removê-lo.

Siso incluso ou semi-incluso
O dente que não irrompeu completamente cria um espaço entre a gengiva e a coroa que é impossível de limpar com escova ou fio. Esse bolso acumula bactérias, restos de alimento e placa, e pode evoluir para infecção (pericoronarite) ou cárie no segundo molar, que muitas vezes o paciente não percebe porque a dor não é localizada.
Pressão sobre o segundo molar
Um siso inclinado pode exercer pressão constante sobre o dente vizinho. Essa pressão pode causar reabsorção radicular, ou seja, o próprio segundo molar começa a ser destruído por dentro. Isso é silencioso no início e pode ser irreversível se descoberto tarde.
Cisto ou tumor associado
Ao redor da coroa de um siso incluso pode se formar um cisto folicular. Na maioria dos casos é benigno, mas pode crescer, destruir osso e envolver estruturas importantes. A detecção precoce por imagem é o que muda o prognóstico.
Dificuldade de higienização com inflamação recorrente
Se o paciente tem inflamação na gengiva do siso com frequência, mesmo sem dor intensa, mesmo com boa higiene, é sinal de que o ambiente ao redor do dente não é controlável a longo prazo.
Necessidade de tratamento ortodôntico
Em alguns casos, o ortodontista pode indicar a extração preventiva do siso para evitar que ele pressione e desloque os dentes após o alinhamento.
O siso incluso sempre dói?
Não. E essa é uma das maiores armadilhas.
O siso pode estar causando dano sem apresentar dor perceptível. A reabsorção do segundo molar, por exemplo, costuma ser assintomática nas fases iniciais. O cisto folicular pode crescer silenciosamente por meses.
A dor, quando aparece, muitas vezes é difusa, dor de cabeça, dor de ouvido, dor no pescoço, e raramente o paciente associa ao dente. Já atendi pessoas que conviveram com episódios de dor crônica por anos sem nunca imaginar que o siso estava envolvido.
Qual exame é necessário para avaliar o siso?
A avaliação de rotina começa com a radiografia panorâmica, que mostra todos os dentes, os sisos e sua relação com as estruturas vizinhas. É o exame de triagem mais usado.
Em casos onde o siso inferior está próximo do nervo alveolar inferior, o nervo responsável pela sensibilidade do lábio e do mento, a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) é fundamental. Ela mostra a relação tridimensional entre a raiz do siso e o canal nervoso, o que muda completamente o planejamento cirúrgico e a conversa sobre riscos.
Não existe decisão de extração ou permanência de siso que seja responsável sem imagem atualizada.
Siso incluso pode causar dor de cabeça?
Sim, e com mais frequência do que as pessoas imaginam.
O siso inferior compartilha inervação com estruturas da mandíbula, ATM (articulação temporomandibular) e músculos mastigatórios. Um processo inflamatório crônico ao redor do siso, mesmo que de baixa intensidade, pode sensibilizar essas estruturas e se manifestar como dor referida na têmpora, no ouvido ou na nuca.
Além disso, a tensão muscular causada por um siso em posição inadequada pode contribuir para quadros de DTM (disfunção temporomandibular), uma condição que causa dor muscular, travamento de mandíbula e dores de cabeça frequentes.
Se você tem dores de cabeça recorrentes e nunca avaliou seus sisos, essa pode ser uma peça importante do quebra-cabeça.
A cirurgia de siso é perigosa?
É um procedimento cirúrgico, o que significa que tem riscos, como qualquer intervenção médica. Mas "perigosa" não é a palavra certa quando o procedimento é bem indicado e bem planejado.
Os riscos mais comuns são transitórios e tratados por medicação: inchaço, desconforto nos primeiros dias, limitação de abertura bucal temporária. Complicações mais sérias, como lesão do nervo alveolar inferior, são possíveis de ocorrer, tem tratamento, mas são evitáveis com planejamento adequado por imagem.
O que torna a cirurgia mais complexa, e os riscos maiores, é a espera. Um siso que precisava ser retirado aos 20 anos e foi adiado até os 35 geralmente tem raízes mais desenvolvidas, relação mais próxima com o nervo e osso mais denso ao redor. Cirurgia planejada com tempo é diferente de cirurgia de urgência.
O maior risco não está na cirurgia. Está em esperar sem acompanhamento.
Com que frequência devo avaliar meus sisos?
Se você tem sisos que foram mantidos na boca, seja porque ainda não irromperam, seja porque estão em posição aceitável, a recomendação é avaliação anual com radiografia panorâmica atualizada.
Crianças e adolescentes a partir dos 12–13 anos já podem fazer uma primeira avaliação de presença e posição dos sisos, mesmo antes de qualquer sintoma. Esse rastreamento precoce é o que permite um planejamento com mais tempo e mais opções.
Perguntas frequentes sobre o dente do siso
O siso pode ficar na boca para sempre? Pode, em casos específicos em que está bem posicionado, em função e com higiene adequada. Mas precisa de acompanhamento regular. "Para sempre sem problema" só é possível com "para sempre monitorado".
Siso incluso que não dói precisa ser tirado? Não necessariamente, mas precisa ser avaliado com imagem atualizada. Ausência de dor não significa ausência de risco.
Qual a melhor idade para tirar o siso? Em geral, entre 18 e 25 anos, quando as raízes ainda estão em formação e a recuperação é mais rápida. Mas a indicação depende do caso, não da idade.
Posso esperar o siso dar problema para tirar? Essa é uma estratégia de risco. Quando o siso "dá problema", muitas vezes o problema já afetou estruturas vizinhas. Avaliação preventiva é mais segura.
Siso pode causar apinhamento nos dentes da frente? A relação é debatida na literatura. O consenso atual é que o siso pode contribuir para apinhamento em alguns casos, mas não é a causa isolada. Pacientes com tratamento ortodôntico completo geralmente recebem indicação de extração como parte do protocolo preventivo.
A extração do siso afeta a articulação ou a mordida? Quando bem indicada e bem executada, não. A preocupação maior é o oposto: um siso em posição inadequada que permanece sem avaliação pode afetar a ATM e a mordida ao longo do tempo.
Siso não é inimigo, mas precisa ser conhecido
O dente do siso não é automaticamente um problema a ser resolvido. Mas também não é algo que pode simplesmente ser esquecido porque ainda não dói.
A única forma de saber se o seu siso pode ficar onde está, ou se ele está agindo em silêncio, é por meio de uma consulta especializada com imagem atualizada, feita por um profissional que conheça o seu caso.
Se você nunca avaliou seus sisos, ou se a última radiografia foi há mais de dois anos, esse é um bom momento para marcar uma consulta.
Dra. Fernanda Schimidt é cirurgiã bucomaxilofacial com atuação em Londrina (PR), especializada em cirurgia de terceiros molares, implantes dentários, DTM e cirurgia ortognática. CRO-PR 28 694.
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